09/02/2007

Solar da Marquesa

101
girou a chave, abriu a porta e seguiu rapidamente na direção do banheiro. tropeçou. na tentativa de se apoiar em alguma coisa acabou enfiando a mão dentro do aquário espalhando pelo chão meia dúzia de Guppy's perplexos com a súbita descoberta de que a vida é mesmo uma coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância. cambaleou mais alguns passos e chutou uma pilha de CD's que estavam no caminho. "que zona! preciso contratar uma faxineira", pensou. conseguiu restabelecer o equilíbrio e alcançou seu objetivo sem calcular com muita precisão a distância, o que provocou um "filho da puta!" sufocado pela dor resultante do choque de seu joelho contra a pia. abriu a torneira e a água misturada com o sangue que encharcava suas mãos escorreu pelo ralo. "que dia de merda!", resmungou, enquanto ouvia o som das sirenes se aproximando.

102
o coração queria sair pela boca abandonando rins, pulmões, fígado, cérebro e todos os outros órgãos a própria sorte. os músculos em estado de alerta, a respiração ofegante, olhos e ouvidos e mãos espalmadas contra a porta de carvalho do hall de entrada do apartamento. "preciso imunizar essa porta antes do verão", lembrou num segundo de distração. aquilo foi um grito de horror, tinha absoluta certeza. seguido de passos apressados pelas escadarias e corredores do prédio. agora, silêncio. talvez, sirenes. se aqueles malditos poodles do 201 parassem de latir seria possível escutar alguma coisa ou dormir em paz nesse condomínio.

103
...entendam a teoria de Lacan: as fantasias precisam ser irreais, porque no momento que se consegue o que quer, não se pode querer mais. para poder continuar a existir, o desejo deve ter seu objeto eternamente ausente. não queremos algo, queremos as possibilidades imaginárias que esse algo proporciona. o desejo apóia as fantasias impossíveis e foi essa a afirmação de Pascal ao dizer que somente somos realmente felizes quando sonhamos acordados com a felicidade futura. daí os ditados: "o melhor da festa é esperar por ela" ou "cuidado com os seus desejos"...
— agora, os norte-americanos citam Lacan e Pascal até em roteiros caipiras.
— ah, eles fazem bons filmes... não que esse... ahn, possa ser classificado como um bom filme.
...não pelo fato de conseguir o que se quer, mas pelo fato de não querer mais depois de conseguir. para Lacan, viver pelos desejos nunca vai trazer a felicidade. o verdadeiro significado de ser inteiramente humano é lutar por idéias e ideais...
— hmmm... mais pipoca?
...não medir nossas vidas pelo que ganhamos em termos de desejo, mas sim por aqueles momentos de integridade, compaixão, racionalidade e, até mesmo, sacrifício próprio...
— você não acha irônico? a gente aprende tudo que não presta com os norte-americanos, só não aprendemos fazer cinema ou exercer um olhar crítico sobre as próprias vidas, que são justamente as únicas duas coisas que eles fazem direito.
...mas nós precisamos da fantasia para continuarmos vivos, pois a fantasia é o que dá cor, luz e magia aos nossos dias. caso contrário, seríamos passivos diante da realidade. mas não podemos nos prender ao imaginário. devemos sonhar, colocando pitadas de fantasias para viver bem a realidade...
— você ouviu esse grito?
— hmmm... acabaram as pipocas.

201
três poodles histéricos perseguiram uma barata completamente atordoada que, apesar da demonstração espantosa da mais completa falta de habilidade ou senso de direção, conseguiu escapar pelo ralo da área de serviço.

202
vende-se. tratar diretamente com o proprietário.

203
tua pose bronze, doce e desenhada não é o que define o meu sorriso... não. tua pele bronzeada, rascunho indefinido... não, não! por hoje chega, amanhã continuo... isso foi um grito!? e o poeta amador adormeceu sonhando com piscinas, carnificinas, aspirinas e outras rimas.

301
acordou. abriu o olho direito, depois o esquerdo. saiu da cama. procurou os chinelos, não encontrou. caminhou pelo quarto escuro e foi até o banheiro, não encontrou. hesitou. procurou o banheiro novamente, encontrou. acendeu a luz. olhou seu reflexo no espelho, colocou a língua pra fora e disse: "ahhhhhh...", lavou o rosto, procurou a toalha, não encontrou. foi até a cozinha. chaleira, água, fogão, fósforos, armário, café solúvel, colher, xícara. procurou açúcar, não encontrou. ficou imóvel, pensando, e não encontrou nada para pensar. começou a desconfiar que estava de ressaca. tentou recapitular as últimas horas: escritório, bar, cerveja, "quanto teria bebido?", outro bar, mais cerveja, sorriso, Lúcia, outra cerveja, a conta, táxi... "Lúcia!?" sentiu um calafrio percorrendo o corpo inteiro. girou lentamente e começou a caminhar na direção da sala. procurou o interruptor e, depois de algum tempo tateando as paredes, encontrou. tapete, sofá, vaso com tulipas, televisão, uma reprodução barata de Van Gogh, estante, livros, tudo em perfeita ordem não fosse um detalhe significativo: aquele não era o seu apartamento! "Lúcia!", pensou, e voltou para o quarto. uma mulher dormia tranquilamente. para não fazer barulho, foi avançando cuidadosamente até sentir a respiração dela no seu rosto. 35, no máximo 38 anos, aproximadamente 1,70 de altura, magra, pele branca — tocou com as pontas dos dedos, e macia, cabelos castanhos que alcançavam os ombros, rosto marcante, boca suave, nariz delicado, olhos verdes... olhos verdes!?
— oie!
— Lú... cia... — conseguiu balbuciar.
— o nome da garçonete no bar? sim, era Lúcia.
— ahn... desculpe.
— eu sou a Valéria, prazer! — e sorriu.
de repente, lembrou. aquele era o sorriso mais desconcertante que já tinha visto em toda sua vida. perguntou se ela estava esperando alguém e já foi sentando na cadeira vazia. disse que estava meio embriagado. não, para ser mais preciso, estava completamente embriagado. pediu desculpas e começou uma conversa maluca sobre Lacan, desejo, fantasia, realidade. ela achou engraçado, disse que também assistiu aquele filme, lembrou até o nome: The Life of David Gale, e comentou que seria reprisado naquela noite na NET e que estava tarde e que precisava ir embora e que morava ali perto. depois, sorriu mais uma vez.

302
uma barata completamente atordoada sai do ralo da área de serviço. seguindo pelos cantos das paredes, cruzou por baixo da porta e vislumbrou a imensidão glacial do piso da cozinha. aguardou alguns segundos imaginando se poodles histéricos não surgiriam novamente para interromper sua busca incansável por comida. contrariando o pensamento comum, as baratas são criaturas altamente refinadas e educadas. frequentam as melhores universidades, bibliotecas, cybers cafés, livrarias, teatros, cinemas e restaurantes diversos. optam viver na escuridão dos encanamentos porque ficam horrorizadas com as repugnantes donas de casa que só sabem se comunicar através de gritos e chineladas. próxima ao fogão, nossa pequena invasora sentiu um aroma entorpecedor e imediatamente começou ver luzinhas psicodélicas piscando. em seguida, a cozinha começou a girar, escutou um mantra Hare-Krishna-Krishna-Hare-Hare-e-afins, enquanto assistia passando diante dos seus olhos um leão, três poodles histéricos, Mencken e Saramago, uma bandeja de sushi e uma fatia de torta de maçã. então, ela sentiu medo, frio, uma dormência nas asas e uma intoxicação generalizada. quando as baratas sentem-se ameaçadas procuram instintivamente relaxar ficando de pernas para cima esperando que o mal passe sem ajuda alguma. aprenderam essa técnica frequentando hospitais públicos. em seguida, disse "33" e morreu.

303
nenhum movimento. o telefone toca insistentemente.

401
alguém observa através do olho mágico os movimentos dos dois sujeitos encapuzados que investem contra a porta do apartamento ao lado. um deles estava com um revólver nas mãos, o outro estava drogado. o sujeito drogado parecia nervoso e transpirava bastante. o sujeito armado começou um discurso sobre as estatísticas que comprovam o aumento do número de acidentes durante o horário de trabalho provocados pelo uso de cocaína. o sujeito drogado perguntou se outro era um sindicalista ou um ladrão e, irritado com a resistência da porta e o discurso, desferiu um chute violento contra a parede gritando de dor e raiva e arrependimento. o grito eccou pelo prédio inteiro. assustados, desceram correndo pelas escadarias e corredores. no térreo, foram surpreendidos por um sujeito que aparentemente morava naquele endereço. o sujeito armado conseguiu escapar pelos cantos das paredes, o sujeito drogado ficou encurralado. com o pé doendo e de saco cheio com aquela situação frustrante, desferiu um soco certeiro no sujeito-morador-do-prédio que caiu atordoado no chão. "que dia de merda!", pensou o sujeito-agredido-morador-do-prédio, levando imediatamente uma das mãos ao nariz para evitar que o sangue continuasse jorrando.

402
o alarme dispara na Central de Vigilância localizada há cinco quarteirões de distância. duas viaturas se mobilizam para atender o chamado e seguem para o local indicado no mapa — profissionais treinados e altamente qualificados, equipados com roupas camufladas, coletes à prova de balas, pistolas semi-automáticas, sub-metralhadoras, granadas, café, sanduíches de atum e uma boa dose de fanatismo por filmes da SWAT. as sirenes rasgam a noite e as ruas da cidade. destino: Solar da Marquesa, apartamento 402.

403
um gato persa mantém o olhar fixo no movimento suave da cortina embalada pelo vento há exatos 23 minutos e 38 segundos. entediado com a cena, muda somente o pescoço de posição e direciona seu foco de interesse para o próprio reflexo estampado na tela cinza da televisão. suspira maravilhado!

10 comentários:

Karen disse...

poderia me informar o filme a que você se refere no n°103 deste post?

obrigada

Rogerio B. disse...

Karen,
o filme é The Life of David Gale (A Vida de David Gale) de Alan Parker, 2003, com Kevin Spacey e Kate Winslet.

Silvia Chueire disse...

Espere aí, eu tinha perdido este post. Lerei e depois volto pra comentar, um prédio é sempre interessante. E sempre demora um pouco.
Té já.

Silvia Chueire disse...

Li. Um romance, será um romance? Leva jeito.O gato chega na hora de respirarmos, o intervalo na tensão.
Gosto.

Um abraço,

Silvia

Rogerio B. disse...

Silvia,
um romance? nãoooooo!!! é só uma forma organizada de escrever bobagens.

Ane disse...

pqp...
Rogério, eu já não te expliquei que texto de blog não pode ser assim tão longo??? hehehehe!

demorei.

passei por aqui várias vezes só olhando para os números em cima das portas.

muita informação.
mas não vou voltar para ler tudo de novo, vou comentar o que lembro rapidamente.

é Zeca Baleiro quem mora no 203?

no 302 o barato da personagem chama-se rodox?

acho que eu moro no 303, né?

aquele negócio usado no 302 podia ajudar no esquema do 401, eu acho.

no 403 mora um bichano de nome Rogerio, ninguém me engana.

agora pára de fazer torres, tá? que tal uma cabana de madeira no meio do mato?

;)
beijo, guri.

PS:
Viu?
Vc me deixou tão atordoada que comentei no post errado (lá embaixo, no térreo). Pode apagar aquilo?

karen disse...

obrigada guri, apesar de você ter diminuído o filme fiquei curiosa em assisti-lo.
parabéns pelo blog!

Silvia Chueire disse...

POis eu acho que dava um romance. : )

Ane disse...

ah...
acho que agora eu entendi a razão do post comprido! o autor do blog jogou a mochila nas costas e foi pular carnaval em Laguna, né?

era post para ser lido devagar, um pedacinho por dia, até que a folia termine.

ok, tá certo.

Rogerio B. disse...

Karen
não diminui o filme não, assisti inteirinho! tem até uma cena legal que explica o motivo de São Judas ser o cara das causas desesperadas. e só por isso ja vale a pena. enfim, cultura inútil total! mas me diz uma coisa... tu é gaúcha "guria"?

Silvia
tá bom, é um romance. ahn... não é, mas vou fingir que concordo com você e você finge que acredita. combinado?

Ane
pular não pulei, sabe como é, portoalegrense não pula Carnaval, vai ao cinema. mas você quase acertou a praia! Floripa fica um pouquinho depois. :P